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Cine São José

Cine São José

Corria o ano de 1943. A única forma de lazer que existia no então Distrito de Osvaldo Cruz, além das pescarias no Rio do Peixe e do futebol, eram os bailes nos salões comerciais que iam tendo as construções finalizadas. Havia a sede social do Califórnia Futebol Clube, que não era muito utilizada. Naquele tempo,

Corria o ano de 1943.

A única forma de lazer que existia no então Distrito de Osvaldo Cruz, além das pescarias no Rio do Peixe e do futebol, eram os bailes nos salões comerciais que iam tendo as construções finalizadas. Havia a sede social do Califórnia Futebol Clube, que não era muito utilizada.

Naquele tempo, o meio para se ter energia elétrica vinha da serraria do senhor Félix Castilho Dias. Mesmo assim, só atingia três quarteirões da área central do Patrimônio. A iluminação gerada era das 18h às 22h, quando o motor da serraria era desligado.

Apesar disso, um sonho começava a ser realizado. José Domaneschi, pertencente a uma família de empreendedores, filho de Alfredo e Ana Domaneschi, donos do primeiro hotel, o Hotel Califórnia, resolveu iniciar a construção de um cinema. Seria o primeiro a ser construído na região, de Marília até Adamantina.

Com a contratação do construtor Egídio Monte, de pedreiros e ajudantes, a obra foi iniciada. A população urbana, que já era de 4.000 habitantes, acompanhava com interesse a obra. Aos poucos, as paredes eram erguidas.

Quando a construção estava quase pronta, houve a chegada dos equipamentos de projeção, das cadeiras e de outros móveis. Para sanar a falta de energia, foi comprado um motor acionado a óleo diesel para fornecer a energia necessária. O cinema recebeu o nome de Cine Teatro São José e depois passou a se chamar Cine São José.

Finalmente, no dia 9 de abril de 1944, com a projeção do filme “A grande mentira”, o cinema foi inaugurado. A população estava extasiada. Todos queriam assisti-lo. Os 1.200 lugares foram totalmente preenchidos. Os espectadores trajavam suas melhores roupas.

Como o cinema era o único local que recebia grande público, este foi palco de solenidades cívicas, encontros políticos, shows e eventos artísticos e até bailes, já que a área em que ficava a plateia tinha pouca inclinação. As cadeiras, que eram de madeira, eram afastadas e colocadas mesas. No local também aconteciam lutas de boxe, que acorriam depois da exibição de filmes. O ringue era armado em cima do palco. As lutas recebiam grande público. Vinham lutadores da região e de São Paulo.

Arquivo | Tadeu Lassen

A primeira reforma do cinema começou no final de 1949, quando a área da plateia passou a ter uma inclinação maior. Com o tempo, as cadeiras foram trocadas por poltronas e foram adquiridos equipamentos mais modernos, de última geração, para poderem fazer uma melhor projeção dos filmes.

Dado o enorme contingente de habitantes de origem japonesa, durante algum tempo, todas as terças e sextas-feiras, depois da primeira sessão eram projetados filmes japoneses.

O cinema passou a ser um ponto de lazer. Grandes filmes foram exibidos. Namoros começaram no balcão, que ficava na parte superior. Muitos terminaram em casamentos. As moças entravam primeiro e guardavam lugar para os namorados, que, quando as luzes apagavam para o início da sessão, corriam aos seus lugares. Muitos casais namoravam no fundo da plateia. Era o momento de os casais ficarem a sós, pois as moças tinham hora para chegarem em casa. Muitos pais mandavam o filho mais novo acompanhar a filha adolescente. Sem contar os lanterninhas que passavam verificando se estava acontecendo algum excesso. Muitos casais eram retirados do cinema por conta desses excessos. Era uma vergonha para os que eram retirados.

Muitas vezes, quando o filme era proibido, alguns garotos iam pelo fundo do prédio e com a ajuda de uma escada que sempre ficava por ali, atingiam a sua parte alta, onde já havia um pequeno buraco, por onde podiam assistir ao filme. Os filmes, geralmente, eram de sexo, mas se apresentavam como educativos ou científicos. A festa durou até eles serem descobertos.

Para a criançada existia a matinê, que acontecia aos domingos. Filmes de bang bang, de desenhos e de aventuras faziam a alegria da garotada. Filmes de Tarzan e de heróis do faroeste eram os preferidos. Nos momentos de suspense, a garotada gritava e batia os pés. Existiam também os seriados, que prendiam a atenção dos garotos, fazendo-os voltar no domingo seguinte.

No hall de entrada do cinema havia uma bomboniere onde eram vendidos chocolates, balas, doces, e outras guloseimas.

No quarteirão em que ficava o cinema era o local do “footing”, a paquera atual. Os homens ficavam parados, olhando as moças que passavam. Alguns rapazes ficavam na fila para a compra da entrada só para guardarem lugar para alguma moça. Apesar de a avenida ser de terra, as moças iam com suas melhores roupas. Quando chovia, era aquele transtorno.

Porém, com a chegada da televisão, no começo da década de 1960, o cinema foi perdendo o interesse. O público, aos poucos foi diminuindo. A empresa proprietária do cinema passou a ter dificuldade em manter o negócio. Foi fazendo dívidas com um banco, até não conseguir pagá-las. Em maio de 1982, a empresa fechou suas portas com a exibição do filme “O último conflito”.

O cinema sempre teve uma música tema, que era tocada antes do início da exibição do filme. A última foi o tema do filme “Amores Clandestinos”, “A Summmer Place”.

Também era muito aguardada a exibição do “Canal 100”, que passava lances de futebol, principalmente do Campeonato Carioca.

Durante sua existência, o cinema teve cinco proprietários, que foram: José Domaneschi, Emil Esper, Antonio Augusto de Almeida Junior, Empresa Zonta e Empresa Teatral Pedutti e quatro reformas. Na última, na frente do prédio, na parte de vidro, foram feitas pinturas em alto relevo de ramos de café, mostrando a riqueza do Município. 

O Cine São José teve uma importância muito grande para várias gerações. Infelizmente, não o temos mais. Muitos dos que foram lanterninhas ainda residem em nossa cidade.

8 comentários

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8 Comentários

  • Avatar
    Washington
    31 de dezembro de 2020, 1:49 AM

    Parabéns Tadeu, excelente a descrição histórica do cinema de Osvaldo Cruz, lendo o texto me localizei em vários momentos, também fui vizinho do seu Totó e dons Lulu que eram gerentes na época dos Pedutti proprietários, abraço caro Tadeu, belo relato.

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    Roberto Crancianinov
    31 de dezembro de 2020, 3:36 PM

    Tadeu
    Seu texto nos faz viajar no tempo, pela riqueza de detalhes.
    Parabéns conseguiu transmitir emoção no seu texto.

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    Odilon Batista Pinto
    2 de janeiro de 2021, 5:10 PM

    bonita matéria, Tadeu

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    Osorio Luz Silva
    2 de janeiro de 2021, 6:54 PM

    Parabéns amigo Tadeu ,obrigado ppir me fazer voltar à minha juventude , obrigado .

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    Takamitsu Koga
    2 de janeiro de 2021, 9:48 PM

    Além desses eventos citados que não tinha conhecimento me lembro do show dos Incríveis com à presença da Rita Paviani, e todos os domingos eram duas sessões as 18:00 e 20:00 horas, e nós ficamos dando volta até que às luzes eram apagadas e assim nos subíamos para sentar com a namorada, todas terça-feira eram de filme japonês com início às 21:00 horas.

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